28 outubro 2010

V.I.P.

Os metódicos que me perdoem, vamos interromper o "Narcisismo e Literatura"!

Ontem estava tentando chegar a faculdade quando o trânsito da marginal me colocou de cara com o Salão do Automóvel. Mas dessa vez o que me chamou a atenção não foi a impossibilidade de transitar em São Paulo e o evento para promover a venda de carros... isso deixou de ser uma contradição! O pior foi ver uma tal de entrada V.I.P.! Nada contra a sigla em si, o que eu não gosto é o que tem por de trás dela: Very Important Person

Dei uma olhada no dicionário inglês-português:
ve.ry  im.por.tant  per.son
adj 1 pessoa muito importante; 2 alguém que merece entrar por uma portinha diferente.

O que me consola, é saber que essa ansiedade por ser especial sempre existiu, não é algo da nossa estúpida (pos) modernidade! A única diferença é que agora as pessoas não podem mais comprar títulos de nobreza, o que fez com que as baronesas e os duques se transformassem em vi-ai-pis.

Bom, como “textos curtos” está ganhando de “temas polêmicos”, vou terminar logo propondo que todos entrem por uma porta só. Uma entrada V.I.P. – porque não tenho nada contra a sigla em si – que no bom português seria: Vamo Intrando Pessoal!

18 outubro 2010

HERÓI SEM NENHUM CARÁTER

         No fundo do mato-virgem nasceu Victor, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. [...] Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava:
— Ai! Que preguiça!...
          Mas a preguiça não começou aí não senhor, nem senhora! Já na barriga de mamãe, lá dentro, eu era sem pressa – também pudera, não tinha relógio nem notava diferença entre dia e noite, tudo era uma longa e morna tardinha de domingo! Ás vezes, cansado um pouco desse tédio dengoso, fazia coceirinha na garganta dela e a barriga se punha a pular e forçar minha saída pela boca! Mas ainda não era hora de largar o cordão, e nem chegando o momento eu queria sair!

          No dia em que nasci, mamãe estava nas águas do Uraricoera. Saiu, enxugou o maiô acariciando bem minha casa e eu dava risada! Mas quando entregou os exames pro Dr. médico, ele não achou graça nenhuma... “Se depender desse moleque, passa dos dez meses e num nasce mais! Minha faca tá amolando, fica pronta pra tirar o menino a noite!”. Ela disse sim e eu, como não sabia falar nada ainda, fiquei quieto. 

           Quando a Dra. médica foi fazer mamãe nanar, acertou a agulha envenenada de sono em mim também e eu que só sabia dormir fiquei ainda mais molinho. E agora o mundo não aguentava mais me esperar, e arrancou o “futuro presidente da república” – como queria minha bisavó Maria – daquela barriga cheia. Viraram de ponta-cabeça, deram tapa na bunda, chacoalharam, gritaram no ouvido e eu empretecendo pela falta de ar! Cheguei a ficar retinto e o Dr. médico não sabia mais o que fazer! Foi ai então que abri a boca, assim bem grande,,, mas não se ouviu choro nenhum e alguém falou baixinho na orelha do outro “Deve ser mudo o coitado” e o outro respondeu “Nada, o pequeno tá bocejando!”.

11 outubro 2010

A HORA E A VEZ...


de Victor Perez

            Desde pequeno tenho uma tendência a mártir! Menininho de formação cristã, sabia que morrer por outros ou por uma causa era algo admirável. Por esse motivo, quando a coordenadora jurou suspender toda a classe se não aparecesse o culpado pelo desaparecimento do estojo da Laurinha, senti uma tentação enorme de dizer que tinha sido eu! Imagine, todos os alunos da 4ª série C iriam me adorar – tirando a Laurinha, que ia continuar sem estojo, óbvio.
            Mas para que este plano desse certo, as pessoas teriam que saber que eu não era realmente o culpado. Ninguém que paga pelo erro que cometeu é considerado um mártir! Então contei essa idéia para um amigo na esperança que ele espalhasse minha inocência pela sala e ele respondeu: “Você é idiota? Isso não vai dar nada, eles só falam pra ameaçar a gente!”.Suspeitei que ele estivesse envolvido no roubo do estojo!
            Estava num conflito, pois agora eu podia:
1) Me fazer de coitadinho e ajudar a sala inteira;
2) Vasculhar as coisas do meu amigo a procura do estojo, entregar ele a polícia e ganhar uma estrelinha no caderno;
3) Seguir seu conselho e deixar o barco correr pra ver se a coordenadora tinha peito de suspender todo mundo.
            O recreio foi longo, mas quando o sino tocou, eu estava decidido!
            Entrei na sala como Matraga faria pouco antes de sua morte: Epa! Nomopadrofilhospritossantamêin! Avança, cambada de filhos-da-mãe, que chegou a minha vez!...
              E a professora: “Que isso menino?! Além de chegar atrasado, entra fazendo bagunça? Senta aí e fica quieto!” e continuou, “Gente, eu vou apagar a luz... quero todo mundo de cabeça baixa e de olho fechado! Vou contar até dez e quero esse estojo na minha mesa. Ninguém vai ver, a Laura vai ter as coisas dela de volta e pronto, não se fala mais nisso!”. Meu plano estava arruinado!
            Muitos anos depois, lendo SAGARANA pela primeira vez, um trecho do livro me chamou muito a atenção. O padre, conversando com Matraga, diz o seguinte:
            Reze e trabalhe, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente, que às vezes custa muito a passar, mas sempre passa. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria... Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua.
            As esperanças estavam renovadas.
         

07 outubro 2010

NARCISISMO E LITERATURA

Bom, ditas as regras, gostaria de iniciar as atividades do meu blog com a série que chamei de "Narcisismo e Literatura". Você pode perguntar: "Como ele vai fazer isso sem quebrar a regra 3? (a do pseudo-intelectualismo)" e eu respondo: "Num sei, mas certamente haverá momentos em que vou usar a regra 1! (a das exceções)".

Justificativa
Me parece que a junção desses dois elementos é a essência de um blog! Um olhar pra si mesmo e um escrever para os outros. Narcisismo porque acreditamos que há algo de interessante no que vamos dizer - o que nos leva a entrar no blog o tempo inteiro, reler o que escrevemos, analisar as estatísticas, procurar comentários... Literatura porque estamos no domínio das palavras - das palavras ESCRITAS em pleno séc XXI, da procura por um estilo que possa agradar quem lê e de uma cadeira, quem sabe, na Academia Brasileira de Letras!

Funcionamento
Vou colocar uma nova postagem por semana, até completar os 4 clássicos da Literatura Brasileira aos quais vou me dedicar! Serão comentários sobre minha identificação com alguns personagens, obviamente grandes heróis, protagonistas da história que nosso país viveu, não na realidade, mas na cabeça de escritores geniais! (Agora fica mais evidente - e ainda mais justificado - o tal do narcisismo!)

Observações
Este blog está ficando muito burocrático/metódico/sistemático, com todas essas divisões, chega!

06 outubro 2010

REGRINHAS

Pensei em algumas normas que me ajudarão a não perder o foco deste blog. São regrinhas que podem ajudar o leitor a decidir, logo de cara, se vai ou não me acompanhar. Segue a lista, caso interessar...

nº 1 - Todas as regras listadas podem ter exceções, menos esta;
nº 2 - Fica proibido o uso de citações em inglês ou francês;
nº 3 - É vetado o discurso intelectual de baixo alcance;
nº 4 - As postagens só serão feitas quando o autor tiver algo que possa interessar;
nº 5 - Não existe conteúdo pré-determinado, desde que respeitadas as regras.