23 novembro 2010

CARRO, FARDA E ALCOOL

     Quando fui na auto escola, uma semana antes de completar 18 anos, a mulher me perguntou: "Vai fechar o pacote?" Eu estranhei o jeito meio disfarçado e sorridente que ela usou - não parecia propaganda e nem parecia enganação. "Qual pacote?" Essa seria uma pergunta natural naquele momento, mas não pra ela. Sua cara de espanto me deixou surpreso e o pior ainda estava por vir.

     Caminhou até a fachada da loja, olhou demoradamente para a rua e puxou o portão de ferro. A pequena salinha de recepção ficou escura por quase um minuto. Ouvia-se o barulho de gavetas abrindo e fechando, papeis batidos na mesa e grampeadores trabalhando. Antes da luz acender um flash me ofuscou as vistas. "Pronto! Vai ficar assim, oh...  Quatro parcelinhas de setecentos e trinta e oitenta. É só assinar aqui, aqui... aqui.. e.. aqui!"

    Quando recobrei a visão percebi que a mulher tinha se trocado e estava usando farda! "Meu Deus, o que é que esta acontecendo aqui?" Na mesa havia um calhamaço de papeis para assinar, uma bandeira do Brasil feita de pano e uma garrafa de vodka. A mulher passava cola em minha mais recente foto 3x4, dizendo "Esta tudo incluso, carteira de habilitação, dispensa militar e o primeiro porre!" Fiquei realmente tentado, mas o valor era quatro vezes mais do que eu esperava pagar.

16 novembro 2010

RESPIRANDO PELA BOCA

     A primeira vez que eu li uma dessas crônicas que o título não tem nada a ver com o assunto principal, fiquei encantado, achei lindo o desenvolvimento de uma ideia paralela terminar com a mesma expressão do título!

     Depois você vai lendo mais coisas e percebe que aquilo que você achava o máximo é uma formulinha, então não é mais a surpresa que faz a crônica interessante e sim o caminho que o escritor encontra para chegar na última frase com o título.

      E num belo dia você está a toa, três palavras vem a sua cabeça e "Nossa, isso daria um ótimo título!". Então você começa a pensar no que escrever e percebe que aquelas palavras não rendem nada. A saída mais fácil é escrever um texto nada a ver com o título e tentar justificar de alguma forma... mas isso é tão difícil quanto beijar a namorada respirando pela boca!

11 novembro 2010

MEMÓRIAS PÓSTUMAS...

de Victor Perez 
ao vírus que primeiro desconfigurar este blog...

QUESTÕES FAMILIARES

     Enquanto a maioria das pessoas perguntam se Capitu traiu ou não Bentinho, minha desconfiança é outra. Será que Brás Cubas, realmente, não teve filhos? Se não, quem teria transmitido para mim este legado de miséria? Se sim, surge uma dúvida maior: Quem seria minha bisavó, a dos 11 contos (onde está essa grana?) ou a coxa (por que feio, se não sou coxo?)?

IDÉIAS FIXAS

     Mas deixemos de lado essas questões familiares, os fundadores de Roma também desconheciam suas origens e nem por isso foram menos importantes para história. Façamos uma breve comparação entre narradores. Enquanto Brás morreu por causa de uma única idéia fixa, eu convivo com dezenas delas. Contudo, os que não suportam essa verdade, dizem que isso é teimosia. 

A PANACÉIA

     Agora, não estamos aqui para falar de diferenças somente. Memórias Póstumas de Brás Cubas encerra esta série merecidamente, senão veja: "o que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas e enfim nas caixinhas do remédio, estas três palavras: Emplasto Brás Cubas". Pena que Brás Cubas tenha esperado a morte para admitir tão belo e corajoso narcisismo! Não cometerei o mesmo erro, caro leitor. Também tenho idéias milagrosas para o mundo, idéias para acabar com a injustiça e a fome, idéias que cabem num frasquinho de remédio, sem bula nem contra-indicação, embalado discretamente para parecer ainda mais honrado. E o leitor poderá provar deste emplasto, caso interessar...

04 novembro 2010

O TRISTE FIM...

de Victor Perez

     Antes de conhecer o Quaresma já era nacionalista, mas isso vai se agravando com o passar dos anos! A primeira vez que me envolvi com a política nacional foi aos sete anos de idade quando descolei do armário o adesivo do Presidente Collor - e o amor a pátria estava só começando!

     Aos treze, tomei aulas de violão, já que guitarra me parecia muito estrangeirado. A música que mais toquei naquele ano foi “Fio de cabelo” do Chitãozinho e Xororó, "legítima música de raiz", segundo meu professor!

     Com vinte decidi que meus filhos não teriam o sobrenome do pai. Percebi que em São Paulo todos são descendentes de alguma coisa e poucos são brasileiros, e eu, como todo Peres e Perez, me sentia até aquele momento mais ibérico que latino. Então apontei o dedo para o alto e bradei: “Minha filha se chamará (...) do BRASIL!”

     Nessa mesma época me matriculei em Tupi Antigo, mas não pude concluir, pois aquele era ano de greve na USP e obviamente as salas de Letras estavam vazias! Nas ruas cheias, eu ia junto com os estudantes e os sindicalistas ao Palácio dos Bandeirantes. Botei um nariz de palhaço e fiz questão de pegar o microfone do trio-elétrico e gritar minhas próprias palavras de ordem!

     Quando cheguei em casa, ninguém disse nada, mas os olhares eram como os do Marechal para Quaresma: Você, Victor, é um visionário...